sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O que já foi e o que será

Sentada, sozinha, na praça de alimentação de um shopping perto de casa, estou paulistanamente comendo. Levanto a cabeça e cruzo o olhar com uma senhora de uns 70 anos. O encontro visual dura alguns segundos e eu logo volto para o meu prato.

Tenho medo de envelhecer. Ainda não sei lidar direito com os cabelos brancos que começaram a aparecer há algum tempo. Só eu vejo eles, mas é o que basta. Eles não combinam com a minha euforia em estar vivendo minha adolescência tardia. Eles não combinam com a cara de surpresa que todo mundo faz quando digo que tenho quase 30 anos.

--- Caralho! Eu te dava uns 23...

Gosto de ainda ter cara de 23. Dizem que os vinte e poucos anos são o ápice da vida e me sinto privilegiada por essa tal vida ter me dado esse capricho. Ter recuperado aos quase 30 o corpinho, o fôlego e o espírito dos pouco mais de 20, depois de ter tido que viver por tantos anos situações que só deveriam ser vividas muitos anos depois. Talvez hoje.

Olhando de rabicho para a senhora da mesa ali na frente, vejo nela um rosto envelhecido, cabelos muito brancos e uma expressão séria. Não é triste. Beira a melancolia, mas acaba transmitindo alguma paz e bastante serenidade. Fico imaginando o que ela vê.

Olhando para mim, certamente vê o frescor da juventude. O semblante de cansaço recompensador de quem trabalhou muito durante a semana em algo de que gosta muito. E a segurança de quem já aprendeu a se permitir passar uma sexta à noite sozinha. Às vezes por necessidade; hoje por escolha.

Vê também a inquietude de quem janta sozinha, mas não larga o celular. A ansiedade pelas respostas que ainda estão por vir no WhatsApp e na vida. A insegurança e a imaturidade de quem ainda está aprendendo a lidar com a fugacidade das coisas.

Olho para ela e a vejo observando, pacatamente, o mundo acontecer à sua volta. Muito já aconteceu para ela e agora parece ter chegado a hora de esperar. Esperar pelos filhos. Esperar pelos netos. Esperar pela aposentadoria cair na conta. Esperar pela morte.

Ela olha para mim e me vê mergulhada em mim mesma, acelerada pelo mundo em que eu vivo e ela desconhece, perturbada com as infinitas possibilidades da vida, distraída pelo turbilhão de ideias, planos, sonhos e expectativas que não me dão trégua em nenhum momento do dia. Olha para mim e vê a intensidade e a incerteza de quem ainda tem muito ainda pela frente para viver.

Olho para ela e me vejo amanhã. Ela olha para mim e se vê ontem. Não gostamos do que vemos e acabamos decidindo voltar a olhar para dentro de nós mesmas. Afinal, é isso o que temos para hoje - ela, a experiência; eu, a juventude - e já percebemos, ela provavelmente há muito mais tempo do que eu, que viver não pode ser conformismo, mas não deixa de ser aceitação.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Oi, vida! Você vem sempre aqui?

Antes de começar a ler este texto, feche os olhos, tente dar uma segurada nos pensamentos e respire três vezes, sem pressa, bem fundo. Pode ir, eu espero.

...

Pronto? Esta sensação que você acabou de ter se chama vida. E esta que você está tendo agora, logo depois de respirar fundo algumas vezes, se chama paz. A paz de quem tem vida.

É muito comum a gente ter insights sobre o valor da vida depois que perdemos uma pessoa querida. Ou depois que alguém muito perto da gente perde uma pessoa querida. Aconteceu comigo faz pouco tempo.

Mas eu acho muito louco quando a gente tem insights sobre a vida sem a motivação específica da ausência. Tive isso hoje.

Cheguei em casa, meio bebadinha do vinho que tomei com uma amiga, falei oi para os meus gatos e entrei no quarto para trocar de roupa. Minha cabeça tá cheia, como a sua e a de todo mundo que vive neste mundo, mas, de repente, olhei para o nada e pensei: caralho, tô viva!

Olhei para o Shants e para o Pedrito. Eles são vida. Cheguei bem perto, fiquei olhando para eles, fiz carinho e pensei de novo: vocês são vida. Falei isso para eles e eles gatamente cagaram para o meu momento inspiração (hahaha... gatos são lindos maravilhosos!).

Vida é poder respirar, é poder pensar, é poder planejar... vida é ser feliz, é ser triste. Vida é poder pôr no blog, no papel, na música, na quadra, no papo de bar o que a gente é de melhor. E de pior. Vida é pôr pra fora o que a gente pensa, mas também é guardar o que a gente não acha que está pronto para pôr pra fora. Vida é escolha.

Vida é sentir frio e calor. Vida é amanhecer. Vida é aquela sensação deliciosa de deitar na cama depois de um dia cheio (já já vou fazer isso) e também é acordar mal humorada (já já também vou fazer isso) porque a porra do despertador tocou e você tem que acordar pra ir correr atrás de algo que você gosta, de algo que você não gosta, de algo que te dá dinheiro, de algo que ainda não te dá dinheiro, de algo que nunca vai te dar dinheiro, de algo que te realiza, de algo que é transição. De algo.

Vida é ser você mesmo. Vida é fazer de conta que você é alguém. Vida é ter chances e possibilidades. Vida é abrir os olhos e sair por aí. Vida é fazer todo o dia a mesma coisa e fazer todo o dia alguma coisa diferente. Vida é agir.

Vida é movimento, vida é um presente, vida é uma chance única e passageira. A vida é um respiro. Ou três, assim como começou este texto...

Oi, vida, tudo bem? Às vezes, esqueço que você é (apenaaaas) tudo o que importa. Mas você não desiste mesmo de mim, né? Está sempre aí. Obrigada! Não repare minha falta de modos e fique o quanto tempo quiser. A gente meio que se estranha às vezes, mas a real é que eu gosto muito de você! Beijos, linda! Te quiero! :*

terça-feira, 14 de julho de 2015

Tempo

O mesmo tempo que escraviza, liberta. Você pode olhar para o relógio do celular como um indício de que o tempo está passando e você está parado, mas você também pode encarar que o tempo é só o tempo e é você que está passando por ele.

Nós estamos sempre passando por aí. Que sorte a nossa por isso! As coisas ficam, a gente vai. E, no fim, levamos um pouquinho mais longe só o que realmente importa, só o que deveria estar com a gente mesmo.

Um dia, uma coisa faz todo o sentido do mundo. Essa coisa é importante, bonita. Pode ser feia e pesada também. A vida é assim. Traz pra a gente coisa boa e coisa ruim. Mas, independente do juízo de valor, o fato é: o sentido das coisas muda. E muda graças ao tempo.

É verdade que essa mudança pode demorar mais ou menos. Depende do quanto estamos dispostos a carregar as coisas com a gente. Depende do quanto vale a pena carregar e, às vezes, também do tamanho da nossa teimosia em insistir carregando.

As relações, os sentimentos, os apegos, os sofrimentos, as alegrias, as amizades, o amor... tudo se transforma. Nada é duradouro. Tudo é perecível.

Reconhecer isso é duro, é verdade. O pensamento de que tudo pode durar para sempre é confortante, cômodo, seguro. É mais fácil nos preparar para lidar com o que já conhecemos. Bom ou ruim, sabemos o que vem.

Mas quando você simplesmente admite para você mesmo que, na verdade, você só está passando por aí, a fugacidade das coisas se torna óbvia, assim como a percepção de que nossa caminhada nessa vida é única e só nossa. Somos os protagonistas dela.

Somos nós que escolhemos o caminho, o ritmo, as companhias, as paisagens, as paradas. Não estamos presos a nada. Se ficamos, é porque queremos. Se vamos, é porque decidimos partir.

A vida não para. A gente não para. O que acontece é que às vezes a gente desliga o motor e continua o movimento na inércia.

Que a nossa inércia seja tão passageira quanto tudo o que acontece na nossa vida.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Plano de voo

Quando a gente decide se separar de uma pessoa que a gente ama muito, o primeiro sentimento, normalmente, é de desespero, mas pode também ser de alívio. Optar por dividir nossa caminhada com outra pessoa torna o percurso mais intenso e bonito, mas também mais desgastante e trabalhoso.

Nossa essência é desbravar caminhos e experimentar sensações novas. É quase que um instinto de sobrevivência, afinal, o mundo é feito por quem é flexível e se adapta facilmente a novas situações. Deve ser coisa de DNA.

Mas a real é que, apesar de extremamente prazeroso, esse voo solo tem também os seus pesares. Nem sempre os dias são ensolarados e os arco-íris, apesar de incríveis, não são coisa que se vê toda hora. Ainda bem, aliás. A raridade é justamente o que os faz serem ainda mais incríveis.

O céu nem sempre está cheio de pássaros lindos, coloridos e diversos, que nos deixam até confusos na hora de decidir para onde olhar. E mais: às vezes o céu até está cheio, mas com pássaros que não chamam nossa atenção por mais de algumas horas. Faz parte.

Tem dias, inclusive, que chove forte e, quando cansamos de bater as asas na chuva e decidimos nos proteger do frio e dos raios, temos que encontrar abrigo sozinhos, sem ajuda de ninguém.

Voar junto é, sem dúvida, mais seguro. Para que um não se perca do outro, antes de decidir sair do chão pela primeira vez, traçamos, juntos, um plano de voo. Para isso, corrigimos a rota um pouco daqui e um pouco de lá e, todos os dias, antes de ir para o céu de novo, trocamos olhares para não esquecer o caminho combinado. Sorrimos em cumplicidade antes de sair batendo as asas juntos por aí.

O fato é que, voando junto ou separado, o céu, sempre lindo, é uma oferta infinita de distrações: uma nuvem de formato diferente, o pôr e o nascer do Sol, uma paisagem lá embaixo que dá vontade de descer para ver, um pássaro colorido, diferente e que canta mais bonito...

Nosso instinto é sempre ir. Mas olhamos para o lado e vemos estabilidade, cumplicidade, parceria... vemos uma rota traçada a ser seguida. Por isso, decidimos ficar, mas não sem olhar para o horizonte e imaginar como teria sido seguir por aquele outro caminho. E não devemos nos culpar por isso. É humano. É natural.

Dizem que quando voamos juntos, vamos mais longe porque temos foco. Acho que isso faz muito sentido, já que, quando temos foco, quase não cedemos às distrações ao redor e vivemos em função de um bem maior: a rota planejada. Essa determinação toda torna o voo compartilhado muito bonito.

Mas muito bonito também é voar curtinho, sem destino, parar de galho em galho, dar um rodopio no ar, ir e voltar. Fazer movimentos circulares, revisitar lugares, planar sem saber para onde o vento irá te levar. Mudar de rota, cagar para a rota e se juntar, temporariamente, a outros voos, sem ter a obrigação de ficar. E não ficar. Partir na hora que bem entender.

A verdade é que a graça de voar é sentir o vento na cara, olhar o Sol nascer, mudar de altitude, recalcular rotas. Às vezes, ou muitas, até tomar chuva, mas, principalmente, mudar sempre de lugar, sem se conformar, sem se acomodar.

Se você estiver fazendo tudo isso, junto ou sozinho, saiba que você está no caminho certo.


quinta-feira, 30 de abril de 2015

Pessoas que amam a vida

Admiro muito as pessoas que são amantes da vida. Pessoas que amam a vida estão abertas para suas possibilidades, sejam elas quais sejam. Pessoas que amam a vida reconhecem, por isso, o real sentido da liberdade porque conseguem viver sem amarras.

Pessoas que amam a vida têm poucos medos. Têm, é claro, aqueles temores óbvios (perder pessoas muito amadas, envelhecer sozinho, chegar ao fim da vida com a sensação de que tudo foi medíocre), mas conseguem facilmente colocá-los em segundo plano quando é preciso. Pessoas que amam a vida põem os receios e preconceitos nossos de cada dia de lado e topam qualquer convite, sem pré-julgamentos.

Pessoas que amam a vida adoram conhecer pessoas novas e se relacionar com elas. Seja fazendo melhores amigos instantâneos para furar a fila da balada ou para ter com quem contar para a vida inteira.

Pessoas que amam a vida investem naquele cara superinteressante que conheceram no Tinder, dão uma chance para aquele outro cara fofo do trabalho e pegam cinco caras seguidos na balada, dando o telefone e não lembrando o nome deles no dia seguinte quando eles mandam mensagem.

Mas quando se apaixonam, as pessoas que amam a vida mergulham de cabeça. As pessoas que amam a vida não reprimem sentimentos, nem boicotam relacionamentos com potencial de serem diferentes de todos os outros pelo simples receio de se magoar de novo. Pessoas que amam a vida não têm medo de sofrer porque sabem que o sofrimento faz parte do pacote.

Em resumo, pessoas que amam a vida não têm medo de amar, mas amam primeiro a elas mesmas e sabem colocar um ponto final em uma história que só está lhes fazendo mal.

Pessoas que amam a vida amam gente, são intensas e jogam limpo. Elas não manipulam as pessoas e são sinceras. Pessoas que amam a vida sabem dizer não e sabem também ouvir (e aceitar) o não. O não definitivamente não é um problema para as pessoas que amam a vida e, por isso, elas sempre pagam para ver e acreditam primeiro no que sentem e só depois no que seria a lógica da coisa.

Pessoas que amam a vida têm trepadas incríveis que se arrastam pela noite inteira e transas horríveis que duram apenas alguns minutos. O fato é: pessoas que amam a vida não têm medo de se entregar. Pessoas que amam a vida apostam alto e, por isso, às vezes ganham e às vezes perdem.

Pessoas que amam a vida ouvem música alta, cantam sozinhas (alto em casa e baixinho pela rua) e têm a imaginação muito fértil. O mundo real é pouco para as pessoas que amam a vida e, por isso, elas precisam expandi-lo para além da rotina do dia a dia. Pessoas que amam a vida são diferentes das outras e, por isso, chamam a atenção, encantam e intrigam.

Pessoas que amam a vida se permitem às vezes estar de boa e passam as tardes de folga deitadas na cama lendo o livro que não tiveram tempo para folhear durante a semana. Elas também ficam em casa de vez em quando em pleno sábado à noite assistindo a algum filme e acordam tarde no domingo para fazer macarrão e tomar vinho. Pessoas que amam a vida respeitam seus limites, seu cansaço e vêem graça em todas as coisas, mesmo nas pequenas.

Mas, quando estão a fim de quebrar tudo, as pessoas que amam a vida vão para a balada até sozinhas, ficam dez horas de pé dançando loucamente com os amigos, fazem bico na foto para postar no Facebook, enchem a cara e vão embora, bêbadas, cantando pela rua quando o Sol já está alto. Pessoas que amam a vida não se importam com o que os outros pensam.

Pessoas que amam a vida se entregam a paixões. Sejam elas passageiras ou eternas, sejam elas por momentos ou pessoas, sejam elas reais ou ilusões. Pessoas que amam a vida dão várias chances para si mesmas e para as pessoas e não têm medo de relacionamentos, sejam de uma noite, sejam para a vida inteira. Pessoas que amam a vida vivem de coração aberto para o que vier.

As pessoas que amam a vida não procuram o amor porque elas já perceberam que é o amor que as encontra. E isso vale muito para o amor romântico por outra pessoa, mas também pelo amor pelos amigos, pelo trabalho, pelos sonhos, pela música ou qualquer outro interesse que elas tenham na vida, desde que ele seja genuíno.

Pessoas que amam a vida não se boicotam e aproveitam intensamente os momentos felizes simplesmente por não terem medo da felicidade. Mas também aceitam os momentos de tristeza e desespero porque entendem que isso faz parte do seu crescimento humano. Pessoas que amam a vida amam a vida do jeito que ela é, com seus altos e baixos.

Você nunca verá uma pessoa que ama a vida arrependida porque não fez algo. Pessoas que amam a vida não titubeiam, às vezes exageram um pouco, mas, no fim, seguram o sorriso no rosto e o semblante de paz de quem está fazendo exatamente o que se propôs a fazer quando veio para este mundo.

Ando amando muito a vida ultimamente. Espero que você também! :)

domingo, 15 de março de 2015

A arte de tomar decisões difíceis, mas necessárias

Às vezes a vida nos surpreende com a necessidade de tomar uma decisão difícil. Da primeira vez que nos deparamos com essa necessidade, nos assustamos: parece grande demais, dificil demais, doído demais. Fugimos dela.

No fundo, sabemos que não há outro caminho a seguir e, mais cedo ou mais tarde, vamos ter que dar o primeiro passo em direção a ele. Mas, ainda assim, adiamos a decisão, alimentando alguma esperança de que uma luz do céu vai descer para nos poupar daquela escolha. Vamos empurrando com a barriga. Não estamos prontos ainda.

Mas a luz não desce. O tempo passa e nada acontece. Tudo o que fazemos dá errado e parece que a vida para de fluir. Apegados, estamos presos ao medo de tomar a decisão que precisamos tomar, apesar de saber que é exatamente por isso que as coisas travam. Ficamos putos, mas, na verdade, tudo isso é obra da vida, paciente, esperando nosso tempo de aprender antes de nos liberar para a próxima fase.

Tentamos ignorar a tomada de decisão, jogá-la para outras pessoas. Criativos, criamos até outras alternativas, mas quando percorremos os caminhos secundários, percebemos que eles dão no mesmo lugar de onde saímos: frente-a-frente com o caminho principal.

Sofremos, choramos e, às vezes, até nos desesperamos. Não queremos, de jeito algum, fazer aquilo. Não queremos fazer o que temos que fazer, o que precisamos fazer, apesar de estarmos sofrendo. Por um tempo, deixamos de confiar na vida e entender que, por mais que não pareça, essa é realmente a melhor coisa que podemos fazer naquele momento.

Até que chega um dia, meio despretensioso, chuvinha na janela, gente com discurso de ódio na Paulista... que merda de dia! E você, simplesmente, percebe que chegou a hora. Você está pronta para tomar a decisão que há tanto tempo vinha adiando.

E toma. E dói. E é tão horrível quanto você imaginou.

Mas, quase que instantaneamente, no meio de toda aquela tristeza, começa a surgir, lá no fundo, uma aliviadora sensação de paz. Um sentimento de que você, finalmente, fez o que precisava fazer. Viva!

Exausta, você vai dormir... mas com uma estranha sensação. É como se uma pessoa querida estivesse passando a mão na sua cabeça, orgulhosamente, te acalmando depois de um dia que ela sabe que foi muito difícil para você. E dentro de você, você escuta: "Você foi ótima, mas agora, não é mais com você. Deixa com a vida!"

Nosso coração é sábio demais. A gente devia aprender logo a confiar nele desde o começo.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Sobre coisas que a gente procura e não encontra

Às vezes a gente sai de casa procurando uma coisa, mas não encontra. Por mais persistente que você seja (não achou aqui? Então anda mais um pouquinho para ver se acha mais ali na frente...), não adianta. Você pode até demorar um pouco para reconhecer, mas o fato é que você não vai encontrar o que está procurando. A batalha está perdida. Pelo menos, a de hoje.

Pessoas, como eu, que acreditam que todos nós somos capazes de tudo têm uma dificuldade maior de assumir derrotas. Otimistas irremediáveis, acreditamos sempre que existe uma luz no fim do túnel, um caminho escondido que não percorremos ainda, um insight iluminado, uma chance.

Interpretamos todos os sinais que a vida dá (e eu acredito muito que a vida nos dá sinais) da forma que é mais conveniente com o que esperamos, com o que queremos que aconteça. E, não contentes, manipulamos, inconscientemente, cada um desses sinais como novas justificativas para a nossa ideia fixa.

Depois de tanto bater a cabeça, inseguros, acabamos nos abrindo com os amigos. Parece que estamos buscando colo ou conforto, mas a realidade é que, teimosos, ainda estamos procurando o que queremos encontrar. Quando pedimos conselho às pessoas queridas, estamos buscando, na verdade, apoio para a nossa ideia, ainda na tentativa de nos agarrar a uma eventual possibilidade perdida.

"Sinceramente? Você deveria desistir."
"Não quero ver você sofrer mais. Desencana."
"Você merece coisa melhor."
"Você é muito cabeça dura."
"Você está idealizando suas expectativas."

E se você também argumenta bem, aí é pior ainda. Você ouve a real, mas não aceita de forma alguma. Insiste numa procura infinita de novos e novos fatores a acrescentar na discussão para tentar legitimar a sua busca. Para tentar mudar a opinião do amigo conselheiro e, mais uma vez, conseguir um novo apoio para continuar procurando.

E, se você é metido a intuitivo, o caso é praticamente perdido. Tudo o que você sentir a partir daquele maldito dia (em que a busca se tornou uma ideia fixa) vai te fazer ponderar se aquele calorzinho no coração é mesmo um "não desista, siga em frente" ou um "estou esquentando porque não aguento mais tanta burrice".

Ironia do destino, o sentimento físico gerado pela intuição é bem parecido com o decorrente da ansiedade. Resumindo: até agora não sei dizer. Intuição ou ansiedade?

Ontem saí de casa procurando uma coisa. Fui a quatro lugares diferentes e, no último, ainda fiquei indo e voltando pelo corredor procurando, mesmo sabendo que o que eu queria também não estava ali e era hora de desistir.

Tupperware estilo Ziploc de 600ml. Se alguém encontrar por aí, me avisa. Estou procurando.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Adeus, escilatopram

Quem inventou essa história de que a gente tem deixar as coisas acontecerem como têm que ser é um grandessíssimo filho da puta. E, certamente, não me conhecia. Se conhecesse, eu ía fazer ele engolir essa ideia de volta em dez minutos de papo. Sou boa nisso. E teimosa. Uma combinação meio chata, mas bastante útil em algumas situações.

Às vezes, eu acho que minha mente é perturbada. Antes, eu achava isso meio pesado, mas agora eu acho que é a vida. É até legal ser meio perturbadinha.

A real é que existe uma gradação de personalidades, que varia entre Budas e psicos. Eu, provavelmente, pendo mais para a direita:


Faz mais ou menos um mês que eu disse adeus ao escilatopram. Foram quase três anos juntos, meu terceiro relacionamento sério mais longo. E você sabe que quando você finalmente aceita que tem algum tipo de transtorno psiquiátrico (pesaaaado!) e que vai precisar tomar remédio controlado, existem dois grandes momentos de grande alívio:

1. Quando você começa a tomar o remédio; e
2. Quando você para de tomá-lo.

Os primeiros contatos com a loucura
Minha primeira crise de pânico aconteceu na praia. O dia estava lindo, o Sol alto. Eu me sentia relaxada e tranquila, como há muito não sentia. Meu namorado na época estava do meu lado. Estávamos bem.

Foi quando senti como se um botão tivesse desligado dentro da minha cabeça. O Sol alto ficou forte e quente demais, a praia linda passou a ser perturbadora. Minha Caixa de Pandora abriu e todos, TODOS, os problemas da minha vida começaram a jorrar na minha cabeça. Como se não bastasse, comecei a sentir uma culpa estrondosa por estar com uma vontade incontrolável de ir embora.

Eu queria levantar e sair correndo, sumir, bater a cabeça no chão. Mas não fiz nada. Fiquei parada. Faz tempo, mas minha memória mais forte desse dia é de uma lágrima escorrendo debaixo do óculos de Sol e eu sentindo algum alívio por estar de óculos, assim meu namorado não perceberia o que estava acontecendo ali.

Quando os primeiros sintomas aparecem, nós obviamente não sabemos o que está acontecendo e temos muita vergonha de assumir que nossa cabeça está fora de controle. Depois desse dia, as coisas foram piorando e eu só conseguia pensar que tinha ficado louca. Essa sensação é terrível! Loucura é fraqueza e quem é que lida bem com fraqueza em um mundo tão implacável?

A segunda vez que tive crise de pânico foi no trabalho. Eram umas quatro da tarde e, de novo, senti que um botão desligou. Todos os dias minha lista de tarefas pendentes e atrasadas só aumentava e todos os dias eu sabia que não iria conseguir vencê-la. E tudo bem. Vida que segue.

Todos os dias eu tinha que estar no trabalho às 8h em ponto para não perder o morning call e todos os dias eu sabia que não ía poder ter dor de barriga, porque não ía ter ninguém para me substituir. Se eu faltasse, o mundo ía acabar, as pessoas não íam conseguir sobreviver sem aquele relatório diário, e minha chefe ía ficar puta e ía me mandar embora e eu ía parar de receber salário e não ía poder mais me bancar em São Paulo e não ía poder mais ajudar minha família.

Mas, naquele dia, algo mudou. Tudo isso que eu já sabia e sentia há meses se tornou pesado demais.

Quando fica pesado demais
Resisti alguns minutos, tentei lutar contra aquilo, mas foi em vão. Tudo o que eu queria era levantar e sair correndo. Aproveitei que minha chefe estava fora da mesa e fiz exatamente isso. Levantei e saí correndo. Foi uma corrida fina e discreta, afinal, eu tinha uma reputação de "mulher forte, independente e bem resolvida" a zelar. Mas internamente me sentia o próprio Usain Bolt.

No caminho até o ponto de ônibus, eu só conseguia pensar em uma coisa: não vou conseguir chegar em casa. Acabou! Obrigada mundo, beijos. Eu sentia que ía morrer ali mesmo, no caminho. É uma sensação muito esquisita. Não é que eu achava que eu (ou alguém) ía me matar. Eu simplesmente sentia que ía morrer. De exaustão. Não dava mais.

Não demorei muito para decidir ir ao psiquiatra. Aquilo estava insustentável. Eu não tinha mais condições de tocar minha vida, de morar sozinha em São Paulo, ir trabalhar. Era duro de aceitar, mas eu havia perdido o controle da minha vida. Na verdade, era pior: finalmente percebi que eu nunca tinha tido. E nunca iria ter.

Eu tinha ficado louca, essa era minha ideia fixa, e não tinha mais volta. Se eu não tomasse alguma atitude, teria que ser internada e passar a vida em uma camisa de força. Não estou exagerando. Eu pensava exatamente isso. Com todas as letras.

A pior bosta dos transtornos de ansiedade é que o inimigo está dentro: é a sua própria mente. É ela que te afunda, que te prende, que te sufoca. Lembro bem que não suportava mais pensar. Eu queria que minha cabeça esvaziasse, explodisse, entrasse em coma. Queria ir para o limbo.

Este é o primeiro momento de alívio que o remédio traz. É indescritível a sensação das primeiras semanas de perceber que sua mente está, finalmente, desligando. A cada dia, você se sente mais calmo, relaxado, aliviado. Para mim, essa sensação começou logo na primeira semana e atingiu o ápice depois de uns dois meses.

Era como flutuar em um alto mar calmo, depois de sobreviver a uma tempestade. Não tem nada em volta, mas você simplesmente está vivo. Eu me sentia anestesiada. A vida passava na minha frente e eu era uma mera observadora (escrevi este texto sobre isso na época). Me sentia em um oásis, após meses passando sede, e não queria sair dali.

Mas o que eu não havia percebido é que a vida tinha perdido a cor. Eu passava o dia deitada no sofá assistindo a séries e jogando The Sims, vivendo no mundo virtual a vida que eu não conseguia mais viver no mundo real. A depressão é preta e branca.

Campeonato para eleger a pior bosta
Eu disse que a grande bosta dos transtornos de ansiedade é que o inimigo mora dentro de você. Mas, na verdade, existe uma bosta pior do que essa: o inimigo não só mora dentro de você, como também é bipolar! Ele é o inimigo, mas, com o tempo você percebe, ele é também sua única salvação.

Só existe um caminho para se libertar da prisão do remédio. E ele só pode ser traçado e percorrido pela sua própria mente.

Não vou mentir: o caminho é longo, chato e dolorido. Se há um mês, finalmente, consegui me libertar do remédio (acompanhada pelo psiquiatra, hein? Não dá para parar de tomar de uma hora para a outra... eu tentei várias vezes e foi terrível!), isso aconteceu por causa da terapia. A terapia me encorajou, semana após semana, a enfiar o dedo dentro das feridas para não deixar formar casquinha.

É impossível sair dessa só com remédio. É um absurdo essa putaria de qualquer médico receitar antidepressivo pra geral e, pior ainda, a galera tomar por conta própria como se fosse bala. Ou doce.

Em alguns casos, o remédio é, sim, necessário. Eu não teria conseguido sem ele. Mas a real é que o remédio primeiro te alivia, mas depois te prende, te amarra. E o inimigo bipolar, sua mente, vai ficando cada vez mais forte e cada vez mais difícil de derrubar...

É libertador escrever este texto hoje. Lembro que eu tinha muita vergonha de assumir que eu estava doente e escondia no fundo da bolsa meu "cartão de acompanhamento de medicação da clínica de saúde mental". Me sentia fraca, fragilizada. A loucura dói.

O louco mora ao lado
Decidi escrever este texto hoje por mim, é claro, mas também por algumas (mais do que você imagina) pessoas queridas que estão passando por coisas parecidas. Você não tem ideia de como tem gente louca perto de você. Sofrendo, lutando... silenciosos.

Então - respirando fundo - vamos lá: há três anos, fui diagnosticada com transtorno misto ansioso-depressivo, definido como CID-10 F41.2. Confesso que ainda dói um pouco assumir, mas, pelo menos, agora consigo falar sobre isso sem rodeios ou metáforas.

Há três anos, eu comecei este blog justamente para falar sobre as coisas que eu estava sentindo e, desesperada, tentar esvaziar minha mente. Esta é a minha fantástica penseira, "um espaço para esvaziar a cabeça, depositar os pensamentos e abrir espaço para o novo". :)

Sim, eu tive transtorno misto ansioso-depressivo, mas... sobrevivi! Não precisei ser internada (porque comecei a tratar a tempo), nem usar camisa de força e hoje aceito muito bem a ideia de que, sim, sou um pouco louca (e quero saber quem é que tem coragem hoje em dia de dizer que não é).

E digo mais: há um mês, eu disse adeus às minhas doses diárias de 5mg de oxalato de escilatopram (já foram 20mg!). Há um mês, voltei a caminhar com minhas próprias pernas.

Mas o melhor de tudo isso é que quando olho para a Jenifer versão 1.0 de três anos atrás, mal consigo me reconhecer. Parece outro mundo, outra vida. Quase consigo agradecer por toda essa merda que passei. Quase... quem sabe um dia?

Melhor ainda é que minha vida voltou a ser colorida. Borrada, mas colorida. Saí do posto de observação da plateia e voltei a assumir o papel principal: o de protagonista da minha própria vida.

Continuo ansiosa e estou começando a aceitar que sempre serei. Ainda tenho uma dificuldade sobrehumana de entender que tem horas que, sem ajuda do remédio, preciso, por conta própria, voltar para a plateia e deixar a vida cumprir o seu papel. Deixar as coisas acontecerem como têm que acontecer. E olha: às vezes, eu até consigo, mas, na maioria das vezes, ainda não.

Mas o grande aprendizado que tirei de tudo isso é que todos nós, loucos assumidos ou ainda não, precisamos nos aceitar na nossa loucura. Não dá para deixar de caminhar - o negócio é sempre andar para a frente -, mas precisamos nos permitir, sem culpa, a desacelerar o passo quando o Sol está muito forte na praia e, hora ou outra, aceitar que precisamos parar um pouco para descansar na sombra.

Força!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

As fodas de hoje começam no Facebook

Em tempos em que levamos uma vida dupla, no face a face e no Face, é muito curioso o que aconteceu com a sedução. Achou o cara gato? Adiciona... Quer chamar a atenção dele? Posta uma selfie com biquinho. Quer que ele lembre de você e talvez te chame para sair no fim de semana? Curta o último post dele - só o último! E esqueça os mais antigos, senão ele vai te achar psico.

Tá com vontade de vê-lo, mas não quer passar a impressão mandando mensagem que tá muito afim? Entra no perfil dele para ver todas as fotos que ele já postou na vida e fica tentando juntar as peças para descobrir o que ele andou fazendo nos últimos tempos. Mas cuidado, de novo, para não curtir nenhuma foto! Cuidado redobrado no Instagram, em que basta um movimento em falso para o coraçãozinho pular. Na tela e no peito, de desespero...

Quer saber se ele saiu ontem com a loira gostosa? Entra no perfil dela que, se ela tiver postado fotos e marcado ele, vai aparecer para você, mesmo que ela não seja sua amiga - essa última técnica, aliás, é bem boa. Só use com moderação para o bem da sua própria sanidade mental! Fica a dica.

E, depois de fazer tudo isso e gastar no mínimo meia-hora fuçando a vida virtual de uma outra pessoa, ainda vale stalkear o cara no Whats... mas não manda mensagem pelo-amor-de-deus! Dá só uma espiada se ele tá online, confere a última vez que ele entrou e checa se ele visualizou sua última mensagem. Mas se ele tiver iPhone, já era, ele pode ter lido sem precisar mostrar os dois risquinhos azuis. Fodeu!

Aí, para se distrair e amenizar a carência, você entra no Tinder e vai atrás de uns matches para dar um up na autoestima, afinal, ninguém é de ferro, né? Dou dez minutos até você se encher das três perguntas iniciais padrão:

- e ae?????
- fala daonde??
- ta procurando oq no tinder?

E mais cinco para você cansar do trio imbatível de fotos masculinas mais recorrentes:

1. De frente para o espelho mostrando o iPhone;
2. Do lado da Torre Eiffel;
3. Sem camisa, mostrando o tanquinho.

Essa última ainda é um pouco melhor porque você olha por cinco segundos a mais e pensa "Hmmm, esse é gostoso!" antes de jogar o dedo para o lado esquerdo pela trigésima vez seguida...

(Fico curiosa para saber quais são as fotos femininas mais manjadas no Tinder... algum cara aí me conta?)


Bebendo uma com um amigo esta semana, eu disse para ele que detesto ficar fazendo esses joguinhos e que, para mim, as coisas poderiam ser bem menos complicadas: Se eu te quero e você também, bora aê? Se você tá em dúvida ou de boa, ok! Daqui um tempo a gente se fala... Se você não me quer, beijos e até a próxima! Sinceridade... com você, a vida seria mais simples.

Mas aí, depois de achar graça da minha - da sua, da nossa - desgraça, ele meteu uma cara de sábio superior (provavelmente reforçada por aquele único pelo branco na barba... HAHAHA! S2), respirou fundo e me olhou com o sorriso torto de quem vai explicar uma coisa importante para uma criança:

- Jê, você mesma tá falando que todo mundo joga, não tá? Então, minha querida, você tem duas opções: jogar e tentar ganhar ou não jogar e já perder. A escolha é sua...

Olhei bem para cara dele enquanto ele dava mais um gole da cerveja com aquele ar insuportável de quem acabou de ganhar uma discussão e percebi que eu não tinha mesmo mais argumentos - estava insistindo na ideia do "menos joguinhos, mais amor, pegação ou qualquer outro tipo de sentimento real" há pelo menos uns 15 minutos. Odeio quando acabam com todos os meus argumentos...

So... let's play!

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Eu quero um amor

Eu quero um amor que me dê frio na barriga
Eu quero um amor que me encoraje a correr atrás dos meus sonhos
Eu quero um amor que me dê força para ir contra todo mundo
Eu quero um amor que me encha os dias de tesão
Eu quero um amor que me faça feliz em Paris ou debaixo da coberta no sofá
Eu quero um amor que me inspire a tocar violão
Eu quero um amor que me grite quando eu fizer gol
Eu quero um amor que me lembre todos os dias o quanto eu sou incrível
Eu quero um amor que me faça rir de mim mesma
Eu quero um amor que me estimule a experimentar coisas diferentes
Eu quero um amor que me leve para dançar
Eu quero um amor que me instigue a abrir a cabeça
Eu quero um amor que me perceba cantando sozinha andando na rua e ache graça
Eu quero um amor que me admire por eu querer os outros bem
Eu quero um amor que me provoque quando eu estiver acomodada
Eu quero um amor que me olhe no espelho e me veja linda todos os dias - ou quase todos
Eu quero um amor que me aceite do jeito que eu sou...
Mas que às vezes também esfregue meus defeitos na cara e me ajude a ser uma pessoa melhor

Eu quero um amor que me baste

Com sorte, o amor que tanta gente procura pode até vir de outra pessoa. Mas o negócio mesmo é perceber que ele também vem de nós para nós mesmos.

Se você ler este texto de novo com isso na cabeça, vai perceber que você pode ser bem mais completo do que imagina.

Beijos, sociedade! :)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Felicidade no gatilho

Happiness hit her
Like a bullet in the head



Passamos a vida ouvindo o que devemos fazer para sermos felizes. A felicidade, além de uma obrigação social, é tida como um estágio pleno que um dia será alcançado pelos merecedores.

E depois ainda temos dúvida do porquê andamos tão frustrados. Não se assuste, mas as pessoas mais equilibradas que conheço encaram a felicidade como uma bala que, hora ou outra, vai atingir a cabeça delas. Acho essa metáfora incrível. Forte, curiosa e precisa.

Calma! Este não é um texto suicida.

Imagine que você está em um campo de batalha, arma em punho. Tem uma estratégia na cabeça. Já atacou, já foi atacado. Está se preparando para a próxima investida. Concentrado na missão e nos planos imediatos, acaba se esquecendo de que, a qualquer momento, quem está na guerra pode levar um tiro.

Isso porque, várias vezes no passado, paralisado pelo medo de levar o tal do tiro, decidiu não sair da trincheira. Preferiu ficar de guarda a sair na linha de frente. O problema é que você sabe que as campanhas mais recompensadoras são justamente as mais arriscadas.

Mas essa vidinha mais ou menos cansa. Assim, com o tempo, você foi controlando o medo e, aos poucos, saindo da linha defensiva. Até que chegou no exato momento descrito dois parágrafos atrás.

O vento está batendo na cara. Você olha para cima, respira e se sente confiante, preparado para executar a próxima missão. Uma série de coincidências começa a acontecer, mas você não percebe.

Nos testes de tiro, você está com uma precisão incrível. Nos treinamentos de equipe, a sintonia do grupo está mais forte do que nunca. As feridas dos combates passados, apesar de ainda estarem lá, não doem mais; estão cicatrizadas. A chuva, esperada para inundar o campo de batalha, não dá nem sinal. O céu está limpo.

Chega a hora. Você está, como há muito não se sentia, confortável na posição em que se encontra. Mas não porque a posição é confortável, afinal, você está no meio de uma guerra. O conforto, na verdade, vem da aceitação da situação em que você está, por pior que ela seja.

É claro que se alguém te perguntasse se você preferia estar em tempos de guerra ou paz, você não teria a menor dúvida. O ponto é: você não tem essa escolha no momento.

É como se, de uma hora para outra, um botão tivesse sido desligado dentro de você. Ontem, você criava expectativas em relação ao dia em que a guerra fosse acabar. Hoje, entretanto, pela primeira vez em meses, não pensou nisso quando acordou. Simplesmente, levantou da cama, entrou no banho e foi para o campo de batalha.

Esse seria mais um dia como os outros, não fosse o fato de que hoje, sem perceber, você luta com a naturalidade e a segurança típicas dos veteranos de guerra. Até que...

PÁÁÁ!

É, você tomou um tiro.

O tempo desacelera, a visão embaça. Seus companheiros de batalha arregalam os olhos enquanto você vai, vagarosamente, desmoronando, à medida que o sangue jorra pelo buraco feito pela bala.

Você agoniza e, segundos antes de perder a consciência, se dá conta: a felicidade atingiu você como uma bala na cabeça.

A felicidade é como um arco-íris, um eclipse, um cometa, um orgasmo. Lembra também a morte. Já vimos, já sentimos, mas, apesar de acabarmos esperando demais por ela, a verdade é que nao dá para garantir a hora em que ela vai chegar. A única certeza é de que, hora ou outra, ela virá. E irá.

Você acorda na maca do hospital. Abre os olhos devagar e se depara com o olhar calmo, mas atento do médico. Balbucia a pergunta:

- O que aconteceu?

Ele demora alguns segundos para responder. Até que abre um sorriso raso, quase piedoso:

- Você foi feliz. - Faz uma pausa. Mas sobreviveu. Você é uma pessoa de muita sorte.

O desespero toma conta. A dor da ferida, a tentativa de entender como tudo aconteceu, a insegurança de ter sido abatido. O medo de tomar um novo tiro quando precisar voltar ao campo de batalha. Porque, uma hora ou outra, você vai precisar voltar. A lembrança da bizarra plenitude que você sentiu enquanto o sangue escorria pelo seu rosto...

O ciclo recomeça. Quando você recebe alta, pede ao superior para voltar para a trincheira. E lá você ficará até perceber novamente que a verdadeira graça desta vida não está na libertadora sensação de levar um tiro na cabeça e se conformar, aliviado, que, depois de tanto sofrimento, esse foi seu fim. Mas, sim, em passar o máximo de tempo possível lutando no campo de batalha.

Um dia antes de voltar ao acampamento militar, você ouve na TV comentaristas políticos debatendo teorias sobre quando chegarão os tão sonhados tempos de paz. Não há consenso, mas a real é que, no fundo, eles não fazem a menor ideia. E nem teriam como.

O medo volta a te paralisar, mas à medida que você se reacostuma com ele, consegue perceber que algo dentro de você parece um pouco diferente em relação à última vez em que foi abatido. Algo te diz que os tempos de paz estão mais próximos do que nunca.

Você afasta a ideia. Conhece muito bem o efeito avassalador de alimentar expectativas que não vão se concretizar. Não sabe se esse sentimento é intuição ou um desejo desesperado de que o que você quer aconteça. Mas quando encosta a cabeça no travesseiro, seu último pensamento antes de pegar no sono é, de novo, examente esse.

Você sempre vai duvidar, mas a verdade é que agora a paz está, sim, mais próxima do que nunca esteve antes. Fragilizado, você não vai conseguir perceber neste momento que, mais do que uma intuição, isso é lógica. A lógica da vida.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Página em branco

Uma página em branco. É o que eu estava enxergando há alguns segundos, antes de começar a escrever este texto. É o que a gente enxerga no exato momento depois que nascemos, mas não nos recordamos mais.

Uma página em branco é o que você vê naqueles momentos em que decide se reinventar, começar do zero, assumir uma nova postura de vida. Virar a página. :) Seja por escolha sua ou não.

Aliás, se por escolha, melhor... você está assumindo o papel para o qual foi destinado: o de protagonista da própria vida. Se não, sinto muito. Deve estar sendo dolorido. Mais do que deveria.

Gosto de pensar que somos todos grandes escritores das nossas vidas. Quem escreve certo por linhas retas ou tortas não é Deus. Somos nós mesmos.

O problema é que às vezes escrevemos na pressa e a letra fica quase ilegível na hora de reler o texto. Afinal, escritor que é escritor, lê e relê várias vezes o mesmo texto.

Lemos e relemos nossa vida diversas vezes. Alguns mais vezes do que outros. Mas o fato é que estamos em um constante escreve, relê, tenta apagar... só que a tinta é permanente.

Que história você está escrevendo?

Você está contando essa história para você ou para os outros?

Quando pretende publicar o livro?

Quando vai começar um novo capítulo?

Até quando você acha que vai conseguir escrever?

Você escreve por hobby ou obrigação?