Quem inventou essa história de que a gente tem deixar as coisas acontecerem como têm que ser é um grandessíssimo filho da puta. E, certamente, não me conhecia. Se conhecesse, eu ía fazer ele engolir essa ideia de volta em dez minutos de papo. Sou boa nisso. E teimosa. Uma combinação meio chata, mas bastante útil em algumas situações.
Às vezes, eu acho que minha mente é perturbada. Antes, eu achava isso meio pesado, mas agora eu acho que é a vida. É até legal ser meio perturbadinha.
A real é que existe uma gradação de personalidades, que varia entre Budas e psicos. Eu, provavelmente, pendo mais para a direita:
Faz mais ou menos um mês que eu disse adeus ao escilatopram. Foram quase três anos juntos, meu terceiro relacionamento sério mais longo. E você sabe que quando você finalmente aceita que tem algum tipo de transtorno psiquiátrico (pesaaaado!) e que vai precisar tomar remédio controlado, existem dois grandes momentos de grande alívio:
1. Quando você começa a tomar o remédio; e
2. Quando você para de tomá-lo.
Os primeiros contatos com a loucura
Minha primeira crise de pânico aconteceu na praia. O dia estava lindo, o Sol alto. Eu me sentia relaxada e tranquila, como há muito não sentia. Meu namorado na época estava do meu lado. Estávamos bem.
Foi quando senti como se um botão tivesse desligado dentro da minha cabeça. O Sol alto ficou forte e quente demais, a praia linda passou a ser perturbadora. Minha Caixa de Pandora abriu e todos, TODOS, os problemas da minha vida começaram a jorrar na minha cabeça. Como se não bastasse, comecei a sentir uma culpa estrondosa por estar com uma vontade incontrolável de ir embora.
Eu queria levantar e sair correndo, sumir, bater a cabeça no chão. Mas não fiz nada. Fiquei parada. Faz tempo, mas minha memória mais forte desse dia é de uma lágrima escorrendo debaixo do óculos de Sol e eu sentindo algum alívio por estar de óculos, assim meu namorado não perceberia o que estava acontecendo ali.
Quando os primeiros sintomas aparecem, nós obviamente não sabemos o que está acontecendo e temos muita vergonha de assumir que nossa cabeça está fora de controle. Depois desse dia, as coisas foram piorando e eu só conseguia pensar que tinha ficado louca. Essa sensação é terrível! Loucura é fraqueza e quem é que lida bem com fraqueza em um mundo tão implacável?
A segunda vez que tive crise de pânico foi no trabalho. Eram umas quatro da tarde e, de novo, senti que um botão desligou. Todos os dias minha lista de tarefas pendentes e atrasadas só aumentava e todos os dias eu sabia que não iria conseguir vencê-la. E tudo bem. Vida que segue.
Todos os dias eu tinha que estar no trabalho às 8h em ponto para não perder o morning call e todos os dias eu sabia que não ía poder ter dor de barriga, porque não ía ter ninguém para me substituir. Se eu faltasse, o mundo ía acabar, as pessoas não íam conseguir sobreviver sem aquele relatório diário, e minha chefe ía ficar puta e ía me mandar embora e eu ía parar de receber salário e não ía poder mais me bancar em São Paulo e não ía poder mais ajudar minha família.
Mas, naquele dia, algo mudou. Tudo isso que eu já sabia e sentia há meses se tornou pesado demais.
Quando fica pesado demais
Resisti alguns minutos, tentei lutar contra aquilo, mas foi em vão. Tudo o que eu queria era levantar e sair correndo. Aproveitei que minha chefe estava fora da mesa e fiz exatamente isso. Levantei e saí correndo. Foi uma corrida fina e discreta, afinal, eu tinha uma reputação de "mulher forte, independente e bem resolvida" a zelar. Mas internamente me sentia o próprio Usain Bolt.
No caminho até o ponto de ônibus, eu só conseguia pensar em uma coisa: não vou conseguir chegar em casa. Acabou! Obrigada mundo, beijos. Eu sentia que ía morrer ali mesmo, no caminho. É uma sensação muito esquisita. Não é que eu achava que eu (ou alguém) ía me matar. Eu simplesmente sentia que ía morrer. De exaustão. Não dava mais.
Não demorei muito para decidir ir ao psiquiatra. Aquilo estava insustentável. Eu não tinha mais condições de tocar minha vida, de morar sozinha em São Paulo, ir trabalhar. Era duro de aceitar, mas eu havia perdido o controle da minha vida. Na verdade, era pior: finalmente percebi que eu nunca tinha tido. E nunca iria ter.
Eu tinha ficado louca, essa era minha ideia fixa, e não tinha mais volta. Se eu não tomasse alguma atitude, teria que ser internada e passar a vida em uma camisa de força. Não estou exagerando. Eu pensava exatamente isso. Com todas as letras.
A pior bosta dos transtornos de ansiedade é que o inimigo está dentro: é a sua própria mente. É ela que te afunda, que te prende, que te sufoca. Lembro bem que não suportava mais pensar. Eu queria que minha cabeça esvaziasse, explodisse, entrasse em coma. Queria ir para o limbo.
Este é o primeiro momento de alívio que o remédio traz. É indescritível a sensação das primeiras semanas de perceber que sua mente está, finalmente, desligando. A cada dia, você se sente mais calmo, relaxado, aliviado. Para mim, essa sensação começou logo na primeira semana e atingiu o ápice depois de uns dois meses.
Era como flutuar em um alto mar calmo, depois de sobreviver a uma tempestade. Não tem nada em volta, mas você simplesmente está vivo. Eu me sentia anestesiada. A vida passava na minha frente e eu era uma mera observadora (escrevi este texto sobre isso na época). Me sentia em um oásis, após meses passando sede, e não queria sair dali.
Mas o que eu não havia percebido é que a vida tinha perdido a cor. Eu passava o dia deitada no sofá assistindo a séries e jogando The Sims, vivendo no mundo virtual a vida que eu não conseguia mais viver no mundo real. A depressão é preta e branca.
Campeonato para eleger a pior bosta
Eu disse que a grande bosta dos transtornos de ansiedade é que o inimigo mora dentro de você. Mas, na verdade, existe uma bosta pior do que essa: o inimigo não só mora dentro de você, como também é bipolar! Ele é o inimigo, mas, com o tempo você percebe, ele é também sua única salvação.
Só existe um caminho para se libertar da prisão do remédio. E ele só pode ser traçado e percorrido pela sua própria mente.
Não vou mentir: o caminho é longo, chato e dolorido. Se há um mês, finalmente, consegui me libertar do remédio (acompanhada pelo psiquiatra, hein? Não dá para parar de tomar de uma hora para a outra... eu tentei várias vezes e foi terrível!), isso aconteceu por causa da terapia. A terapia me encorajou, semana após semana, a enfiar o dedo dentro das feridas para não deixar formar casquinha.
É impossível sair dessa só com remédio. É um absurdo essa putaria de qualquer médico receitar antidepressivo pra geral e, pior ainda, a galera tomar por conta própria como se fosse bala. Ou doce.
Em alguns casos, o remédio é, sim, necessário. Eu não teria conseguido sem ele. Mas a real é que o remédio primeiro te alivia, mas depois te prende, te amarra. E o inimigo bipolar, sua mente, vai ficando cada vez mais forte e cada vez mais difícil de derrubar...
É libertador escrever este texto hoje. Lembro que eu tinha muita vergonha de assumir que eu estava doente e escondia no fundo da bolsa meu "cartão de acompanhamento de medicação da clínica de saúde mental". Me sentia fraca, fragilizada. A loucura dói.
O louco mora ao lado
Decidi escrever este texto hoje por mim, é claro, mas também por algumas (mais do que você imagina) pessoas queridas que estão passando por coisas parecidas. Você não tem ideia de como tem gente louca perto de você. Sofrendo, lutando... silenciosos.
Então - respirando fundo - vamos lá: há três anos, fui diagnosticada com transtorno misto ansioso-depressivo, definido como CID-10 F41.2. Confesso que ainda dói um pouco assumir, mas, pelo menos, agora consigo falar sobre isso sem rodeios ou metáforas.
Há três anos, eu comecei este blog justamente para falar sobre as coisas que eu estava sentindo e, desesperada, tentar esvaziar minha mente. Esta é a minha fantástica penseira, "um espaço para esvaziar a cabeça, depositar os pensamentos e abrir espaço para o novo". :)
Sim, eu tive transtorno misto ansioso-depressivo, mas... sobrevivi! Não precisei ser internada (porque comecei a tratar a tempo), nem usar camisa de força e hoje aceito muito bem a ideia de que, sim, sou um pouco louca (e quero saber quem é que tem coragem hoje em dia de dizer que não é).
E digo mais: há um mês, eu disse adeus às minhas doses diárias de 5mg de oxalato de escilatopram (já foram 20mg!). Há um mês, voltei a caminhar com minhas próprias pernas.
Mas o melhor de tudo isso é que quando olho para a Jenifer versão 1.0 de três anos atrás, mal consigo me reconhecer. Parece outro mundo, outra vida. Quase consigo agradecer por toda essa merda que passei. Quase... quem sabe um dia?
Melhor ainda é que minha vida voltou a ser colorida. Borrada, mas colorida. Saí do posto de observação da plateia e voltei a assumir o papel principal: o de protagonista da minha própria vida.
Continuo ansiosa e estou começando a aceitar que sempre serei. Ainda tenho uma dificuldade sobrehumana de entender que tem horas que, sem ajuda do remédio, preciso, por conta própria, voltar para a plateia e deixar a vida cumprir o seu papel. Deixar as coisas acontecerem como têm que acontecer. E olha: às vezes, eu até consigo, mas, na maioria das vezes, ainda não.
Mas o grande aprendizado que tirei de tudo isso é que todos nós, loucos assumidos ou ainda não, precisamos nos aceitar na nossa loucura. Não dá para deixar de caminhar - o negócio é sempre andar para a frente -, mas precisamos nos permitir, sem culpa, a desacelerar o passo quando o Sol está muito forte na praia e, hora ou outra, aceitar que precisamos parar um pouco para descansar na sombra.
Força!

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