domingo, 3 de fevereiro de 2013

A arte do não se acostumar

Minha cama é debaixo da janela do quarto. Normalmente, quando eu deito para dormir e olho para frente, vejo meu guarda-roupa. A janela está em cima da minha cabeça e não vejo nada lá fora.

Nos dias em que quero refletir sobre a vida ou estou em busca de inspiração ou de alguma resposta, eu costumo deitar ao contrário. Meu guarda-roupa fica atrás da minha cabeça e quando olho para frente, vejo a janela...

Olhar para o céu acalma. Quando você olha para o céu e fica reparando nele, nas nuvens, nas cores, automaticamente esvazia a cabeça. E olha que, nos dias de hoje, conseguir esvaziar a cabeça por alguns minutos é uma enorme conquista.

Mais do que esvaziar a cabeça, a gente olha para uma beleza extrema que está diante de nós todos os dias. Basta levantar a cabeça. Mas a gente tem uma mania tosca de se acostumar com as coisas que temos e deixar de reparar nelas.

A gente se acostuma com a nossa rua, com a nossa casa, com o nosso quarto. Quem nunca ficou morrendo de saudade da cama depois de passar alguns dias fora?

A gente se acostuma com a nossa saúde, com a nossa visão. Acostuma a sentir o gosto das coisas, a respirar. Como é terrível aquele dia em que ficamos com dor de cabeça ou garganta! Como a gente valoriza  nessa hora as horas em que estamos bem. E como a gente esquece disso rapidinho quando saramos.

Mas acho que a pior coisa para se acostumar (e a gente sempre faz isso!) são com as pessoas à nossa volta. Nossos vizinhos, nossos colegas de trabalho, nossa família, nossos amigos, nosso amor. Afinal, eles estão sempre lá, não é mesmo?

Sempre temos na ponta da língua onde queremos chegar e o que falta. Sempre temos uma lista do que reclamar.

Mas a gente deveria reparar mais em tudo de bom que temos. Parar alguns segundos por dia, respirar fundo e agradecer por tudo. Valorizar o que já conquistamos. Valorizar onde estamos. Valorizar as pessoas que temos. Valorizar a vida.