segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Minha lição de perdão

Nesta época, é quase impossível não ficar mais reflexivo e relembrar os melhores e piores momentos do ano, além de fazer planos para o próximo ciclo que vai começar em breve. Os dois grandes compromissos que assumi comigo mesma para 2014 foram redescobrir minha espiritualidade e aprender a perdoar. É hora de fazer um balanço.

Posso dizer que avancei bastante em ambos, mas ainda há um longo caminho pela frente. Especialmente nessa história do perdão. É engraçado esse prazo de um ano que colocamos para nós mesmos... Não conseguimos fazer uma coisa por décadas e, de uma hora para a outra, esperamos conseguir desligar um botão e fazer tudo ser diferente.

De qualquer forma, nessa trajetória que comecei para - quem sabe um dia - aprender a perdoar, já consigo perceber uma coisa. Se você não for Buda, dificilmente conseguirá perdoar alguém de verdade se nunca tiver ficado do outro lado; se nunca tiver ficado à espera de um perdão.

E quando digo perdão, me refiro a algo que vai além de perdoar o outro - algo que, por sinal, já é difícil. Perdoar significa não só acabar com a mágoa e o rancor que você sente do outro, como também simplesmente tirar esse sentimento de peso que fica dentro de você. Então, quando você finalmente acha que chegou lá, descobre que ainda tem um caminho ainda mais difícil pela frente.

Por mais que amemos a pessoa, por mais que seja óbvio na balança que todas as coisas boas que ela fez para a gente superam de longe aqueles momentos de deslize, nosso orgulho não nos permite simplesmente deixar isso para trás. O apego não é só com as coisas de que gostamos... também somos apegados aos sentimentos negativos. Somos bizarros!

E, pensando bem, quando alguém te magoa e você decide perdoar - afinal, você pode decidir não perdoar também e foda-se -, você tem duas escolhas: começar tudo do zero ou viver um eterno sentimento de superioridade em relação a quem te magoou. Afinal, você é uma pessoa incrível e evoluída: conseguiu passar por cima daquilo. Você foi condescendente com aquela pessoa e, como poucos, reconhece que todo mundo erra. Você é foda!

E foda você continuará sendo até o momento em que quem erra é você. O momento em que você assume sua natureza humana de fazer merda, ceder aos impulsos, agir com base em um contexto que, passado o tempo, não faz mais o menor sentido. Mas na época fazia. E você sabe bem como fazia.

O problema é que o contexto em que você se encontrava, por pior que seja, não justifica a mágoa que você provocou na outra pessoa. Na pessoa que você amava, na pessoa que confiava em você, na pessoa que deixou de fazer muitas merdas - em contextos tão ou mais tensos quanto aquele em que você fez a sua - em respeito a você. E aí?

E aí que você não pode fazer nada, além de dizer que sente muito. E esperar. Esperar pelo perdão, esperar pelo não perdão.

Esperar pelo perdão e por tudo voltar como era antes. Esperar pelo perdão, mas sem tudo voltar como antes. A merda é que, a partir deste momento, o que será não depende mais de você. E esse sentimento de incapacidade decorrente de algo causado por você mesmo, independente da justificativa, corrói o fundo da alma. A culpa é implacável.

Mas, em vez de se jogar da janela ou passar a vida inteira se corroendo, existe uma coisa que você pode fazer. Que todos nós podemos fazer. Perdoar, de verdade, as pessoas que merecem e estão esperando o nosso perdão. Não podemos fazer nada para conseguir o perdão de quem queremos, mas podemos fazer tudo por quem está esperando o nosso. Ironias da vida.

Agora vai de você... a escolha é sua. A escolha é minha. Feliz 2015!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A merda do talvez

Sou o tipo de pessoa que trabalha com sim ou não. "Ou" exclusivo. E o problema nisso não está em só haver duas alternativas... por até haver mais. Sou boa em fazer prova. Na hora do vamo vê, tenho sangue frio para afastar o nervosismo e a ansiedade por algumas horas e pensar racionalmente em cada uma das quatro ou cinco alternativas para tentar encontrar a certa.

Assim, às vezes eu acerto, às vezes eu erro e lido bem com as duas situações. Celebro as vitórias, sofro com as derrotas, mas a vida segue. Antes de passar na USP, eu levei três nãos. Agora quero entrar no Banco Central e já levei o primeiro. Sem problemas, daqui a alguns anos, terei uma nova chance e vou estar pronta para ela. Seja sim ou um novo não a sua resposta.

Você, que está lendo este texto, deve estar me achando incrível. Forte, bem resolvida. E eu realmente seria... não fosse minha dificuldade em lidar com o "talvez". O tanto que eu lido bem em receber um "não" é diretamente proporcional ao tanto que eu lido mal em receber um "talvez". Que ironia!

Mas vamos combinar uma coisa? Que merda é essa história de "talvez", hein? Na minha cabeça, todas as coisas no mundo são muito simples: ou são, ou não são. E ponto! Escolhe, mano. E me dá a resposta logo para eu digerir ela logo e seguir em frente logo para a próxima pergunta... que virá logo. Queria aproveitar a oportunidade para mandar um beijo para a Ansiedade, minha grande companheira.

A grande merda desta vida é que, para meu desespero, ela dificilmente é preto no branco. Ela está cheia, cheia de tonalidades cinzas, de perguntas sem resposta. A vida está cheia de talvezes. Formidável!

E como é que eu lido com isso? Batendo a cabeça na parede, é claro! Eu quero morrer, matar, surtar, sumir. Gente, pra que tanta dificuldade em tomar uma decisão? Eu tenho zero dificuldade em tomar decisão. Penso por algum tempo nos prós, nos contras e pronto, está feito! Respondo se é sim ou se é não.

Se tiver sido a melhor escolha, ótimo. Se não tiver, vou me arrepender e tentar consertar. E, se eu não conseguir consertar, paciência! Não era para ser, dei o meu melhor. Beijos! Simples, não é?

Não, não é. Minha grande lição deste ano - que eu, teimosa, não me permito aprender de jeito nenhum - cada vez mais é esfregada na minha cara:

"Jenifer, minha querida, a vida não é um gabarito. As pessoas e os sentimentos são bem mais complexos do que isso. Nem sempre existe uma única resposta para uma questão. Às vezes, o certo e o errado andam juntos...

Você não está amando conhecer o taoísmo? Então, yin-yang! O mundo, sim, é dual, como você tanto gosta de enxergar. O problema é que você está meio daltônica e não consegue enxergar as misturas dessas duas cores, capazes de produzir tonalidades infinitas."


Então tá... já entendi que vou precisar revisar esse capítulo de novo. A minha sorte é que eu gosto de estudar...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Entrelinhas

Estou com muita vontade de...
Mas não posso fazer isso porque...

Como é difícil...
Ninguém me disse que...

Eu sempre quis...
Mas nunca imaginei que...

Dizem que viver é assim mesmo, mas na hora do vamo vê...
Talvez o tempo ajude a...

Mas talvez não.
Talvez eu tenha que aprender que...

Um recurso que facilita muito a vida é aprender a ler nas entrelinhas. Boa sorte!



Oração Ao Tempo

Caetano Veloso

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo, tempo, tempo, tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo, tempo, tempo, tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Portanto, peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo, tempo, tempo, tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo, tempo, tempo, tempo