quarta-feira, 20 de maio de 2015

Plano de voo

Quando a gente decide se separar de uma pessoa que a gente ama muito, o primeiro sentimento, normalmente, é de desespero, mas pode também ser de alívio. Optar por dividir nossa caminhada com outra pessoa torna o percurso mais intenso e bonito, mas também mais desgastante e trabalhoso.

Nossa essência é desbravar caminhos e experimentar sensações novas. É quase que um instinto de sobrevivência, afinal, o mundo é feito por quem é flexível e se adapta facilmente a novas situações. Deve ser coisa de DNA.

Mas a real é que, apesar de extremamente prazeroso, esse voo solo tem também os seus pesares. Nem sempre os dias são ensolarados e os arco-íris, apesar de incríveis, não são coisa que se vê toda hora. Ainda bem, aliás. A raridade é justamente o que os faz serem ainda mais incríveis.

O céu nem sempre está cheio de pássaros lindos, coloridos e diversos, que nos deixam até confusos na hora de decidir para onde olhar. E mais: às vezes o céu até está cheio, mas com pássaros que não chamam nossa atenção por mais de algumas horas. Faz parte.

Tem dias, inclusive, que chove forte e, quando cansamos de bater as asas na chuva e decidimos nos proteger do frio e dos raios, temos que encontrar abrigo sozinhos, sem ajuda de ninguém.

Voar junto é, sem dúvida, mais seguro. Para que um não se perca do outro, antes de decidir sair do chão pela primeira vez, traçamos, juntos, um plano de voo. Para isso, corrigimos a rota um pouco daqui e um pouco de lá e, todos os dias, antes de ir para o céu de novo, trocamos olhares para não esquecer o caminho combinado. Sorrimos em cumplicidade antes de sair batendo as asas juntos por aí.

O fato é que, voando junto ou separado, o céu, sempre lindo, é uma oferta infinita de distrações: uma nuvem de formato diferente, o pôr e o nascer do Sol, uma paisagem lá embaixo que dá vontade de descer para ver, um pássaro colorido, diferente e que canta mais bonito...

Nosso instinto é sempre ir. Mas olhamos para o lado e vemos estabilidade, cumplicidade, parceria... vemos uma rota traçada a ser seguida. Por isso, decidimos ficar, mas não sem olhar para o horizonte e imaginar como teria sido seguir por aquele outro caminho. E não devemos nos culpar por isso. É humano. É natural.

Dizem que quando voamos juntos, vamos mais longe porque temos foco. Acho que isso faz muito sentido, já que, quando temos foco, quase não cedemos às distrações ao redor e vivemos em função de um bem maior: a rota planejada. Essa determinação toda torna o voo compartilhado muito bonito.

Mas muito bonito também é voar curtinho, sem destino, parar de galho em galho, dar um rodopio no ar, ir e voltar. Fazer movimentos circulares, revisitar lugares, planar sem saber para onde o vento irá te levar. Mudar de rota, cagar para a rota e se juntar, temporariamente, a outros voos, sem ter a obrigação de ficar. E não ficar. Partir na hora que bem entender.

A verdade é que a graça de voar é sentir o vento na cara, olhar o Sol nascer, mudar de altitude, recalcular rotas. Às vezes, ou muitas, até tomar chuva, mas, principalmente, mudar sempre de lugar, sem se conformar, sem se acomodar.

Se você estiver fazendo tudo isso, junto ou sozinho, saiba que você está no caminho certo.