domingo, 24 de março de 2013

Cinquenta tons de machismo

Reencontrei uma amiga muito querida na semana passada, que andou passando por um daqueles momentos muito difíceis da vida feminina multitarefas. Além da óbvia solidariedade de gênero e do meu amor por ela, outro fator tem me tornado extremamente solidária a quem tem sofrido as agonias desse novo mundo feminino: também passei recentemente por uma dessas. Das brabas!

Mas, enfim, este não é o tema do meu texto de hoje. Essa introdução foi só para mostrar como cheguei aos Cinquenta Tons de Cinza. Ela leu, amou e me emprestou.

Desde que começou o vuco vuco em torno desse best seller, confesso que torci feio o nariz. O motivo: as críticas que caracterizaram a trilogia da britânica E. L. James como machista. Quem me conhece um pouquinho, sabe que a minha tolerância ao machismo é extremamente baixa, se é que tenho alguma.

Mas apesar das minhas posições fortes (às vezes, cabeça dura), do meu engajamento feminista (muitas vezes, exagerado), sei que sou uma pessoa bastante aberta a ouvir. Menos a aceitar as diferenças, mas, ainda assim, sou uma boa ouvinte de ideias diferentes. Ainda mais, quando se trata de uma amiga.

Aceitei o livro e me empolguei com as piadas dela em relação a seu relacionamento secreto com o fantástico Sr. Grey.

A não surpresa foi que gostei muito do livro. Sim, vocês não estão cegos e eu não estou louca. De alguma forma, ainda que meio contrariada, eu pressenti que ía gostar.

A grande surpresa foi que não o achei nada machista! NADA! Me envolvi totalmente com a leitura... Atendeu minhas expectativas: uma leitura, sim, rasa (mas alguém estava esperando o contrário?). Ideal para relaxar minha cabeça que anda mergulhada em aprender um pouco de Direito Constitucional e Administrativo para prestar o concurso do Banco Central em breve.

Resultado: quase 500 páginas em duas noites mal dormidas. Ah, Sr. Grey...

Gente, vamos ser menos chatos! Este mundo está muito careta! É uma leitura de lazer, minha gente. Ficção, esvaziar a cabeça, sabe? Na vida, tem hora para ler Guimarães, Machado. Assistir (e amar!) Almodovar, ouvir Chico e Caetano... mas também tem hora para falar abobrinha, fazer piada rasa, ser idiota. Muito prazer, eu sou normal!

Que atire a primeira pedra quem não gosta de alguma das alternativas abaixo para se distrair:

a) Novela;
b) BBB;
c) Seriado (enlatados norte-americanos);
d) Senhor dos Anéis;
e) Crepúsculo;
f) Harry Potter;
g) Lek Lek, Harlem Shake e memes bizarros do Youtube;
h) Porta dos Fundos;
i) Kibe Loko;
j) UFC;
k) Futebol (xiii, essa é polêmica... haha);
l) A que eu não escrevi aqui, mas que você adora e sabe que, no fundo, se encaixa perfeitamente nessa lista.

Mas agora vou fazer uma grande revelação:

Tcham tcham tcham tcham...

Além do momento "distração", este livro me despertou um questionamento sério em relação ao machismo. Vejam vocês que ironia! Para mim, machistas, na verdade, são algumas críticas ao livro.

Cansei de ler nesses últimos meses, comentários de homens revoltados e blogs "para machos" descendo o pau na mulherada pirando nos Cinquenta Tons. O pensamento se resume no seguinte:

"Não consigo entender as mulheres. Elas se dizem feministas, querem ser independentes, lutam contra a violência feminina... mas estão se derretendo todas com o livro do machão que bate na mulher e a trata como submissa. E ainda por cima só gostaram do cara porque ele tem dinheiro e trata a mocinha virgem como prostituta."

Desde a primeira linha, confesso, que procurei avidamente por embasamentos para essa argumentação masculina, só para vir aqui xingar o livro e pregar meu velho discurso de que mais escroto que homem machista é mulher machista. Mas não consegui achar em qualquer parte do livro. NENHUMA! Esse pensamento não tem NADA A VER com a trama do livro e é, na real, muito preconceituoso!

Fiquei, na verdade, me questionando se o que perturbou tanto esses homens não foi, na verdade, algum dos itens abaixo:

1. O fato de o Grey ser um puta de um gostoso tesônico (viva o Casal Sem Vergonha! :). Muitos homens heterossexuais não sabem lidar com homens gatos, tanto que não conseguem dizer que um cara é bonito, porque, afinal "eu não sou viado";

2. O fato de o Grey ter um pinto grande e saber muito bem como usá-lo. Nem preciso comentar. Trauma masculino total com o tamanho do pinto. Assim como a gente tem com a pancinha, a celulite... e, no fim, podemos ser mais parecidos do que imaginamos;


3. O fato de o Grey manjar muito de mulher e saber exatamente o que está fazendo. Ele simplesmente dá conta, quantas vezes for. Todas as vezes que eles transam, ela goza... e com penetração! Sem esforço! Imagino o quão assustador seja o fato de ele dar mais orgasmos para a Ana em duas semanas do que qualquer um deles acha que conseguirá fazer na vida;


4. O fato de ser um livro erótico voltado para mulheres. PARA MULHERES! Não que seja o primeiro, mas certamente foi o primeiro que fez tanto sucesso. Não tenho certeza se muitos homens já sabem lidar bem com o fato de que as mulheres também exigem sentir prazer;


5. O atestado de que assim como eles curtem bater uma com Playboy ou um pornô e gostam de olhar pra bunda na rua e falam sobre os peitos da secretária com os amigos (e isso é normal), a gente também tem isso! Só que reconhecer isso e, de repente, começar a descobrir que as nossas formas de sentir tesão são muito diferentes... Isso é uma novidade avassaladora que foi jogada e esfregada na cara deles;


6. "Ah, mas o Grey não existe. É um exagero, uma fantasia". E, por acaso, vocês realmente acham que as minas dos filmes pornô e do Pânico são, na verdade, daquele jeito mesmo que vocês vêem e ficam loucos? E isso por acaso torna a punheta menos prazeroza? Então...


7. A gente também fode... nem sempre fazemos amor. Nem sempre queremos. É, queridos... a vida é dura. E a gente adora!


8. A gente fecha os olhos e quer dar pro Grey. Em cada passagem que narra a transa deles, a gente se imagina no lugar da Ana. Vocês não se imaginam comendo todo mundo de todas as formas e tudo bem? Isso muda o que vocês sentem pela namorada ou pela mulher? (Vocês juram que não e eu, de verdade, acredito!) Saibam que a gente também deseja, fantasia e quer outros homens. E isso também não muda em nada o que sentimos por vocês. É só sexo, prazer. A gente também sabe separar.


Se você (homem ou mulher) não reconhece (ou não admite tudo isso), você pode ser machista e, se for mesmo, eu não gosto de você! Sorry. (Cabeça dura e exagerada, lembra?)

Mas, por outro lado, você também pode ser um homem perdido nesse novo mundo de libertação feminina e que ainda não sabe lidar bem com tudo isso.

Vou te contar um segredo: nem a gente sabe direito. ;) Mas a gente vai chegar lá e ensinar vocês. E, se você se encaixa nesse segundo caso, aí eu gosto de você, tá?


Tem mulherada pirando achando que o Matt Bomer vai interpretar o irresistível Sr. Grey na telona. Eu não iria achar ruim. :) Infelizmente, na vida real, o ator gosta da outra fruta (ponto pra vocês, gays! Saco! :).

Mas, homens hetero, não desanimem. Há rumores de que a
Mila Kunis (que se eu já acho ma-ra-vi-lho-sa, imagino vocês) pode ser a Ana. Nada mal, hein?

sábado, 9 de março de 2013

Meus defeitos são outra história

Não consigo me acostumar com pessoas que tercerizam a própria vida, narrando-a na forma de uma história. Talvez porque eu tenha uma facilidade enorme de falar sobre mim mesma, meus sentimentos, minhas qualidades e meus defeitos. Até demais... vários companheiros de dois minutos de elevador já ouviram coisas minhas que tem gente que leva a vida inteira para contar para o terapeuta.

Talvez eu tenha exagerado um pouquinho, mas a ideia era caricaturar mesmo. Você conhece alguém que fala de si e seus sentimentos sempre na terceira pessoa? Você é assim?

Vou dar dois exemplos que ouvi recentemente:

"Estou cansado do brasileiro de hoje que se acha engajado assinando petições pela internet. Veja essa última do Renan Calheiros: mais de 1 milhão de assinaturas virtuais e meia dúzia de gatos pingados para entregar o abaixo-assinado ao vivo em Brasília."

Algumas coisas me passaram pela cabeça ao ler isso na minha timeline:

1. Essa pessoa está falando dos brasileiros e é brasileira. Logo, ela está fazendo uma crítica a ela mesma sem perceber.
2. Essa pessoa assinou a petição online? Obviamente não.
3. Essa pessoa foi entregar o documento ao vivo no Congresso? Provavelmente não.

Minha conclusão: a pessoa está usando a própria arrogância para mascarar a sua comodidade em relação às coisas que acontecem no Brasil. Quando ela fala dos brasileiros, e não dela mesma, ela se distancia do assunto e, assim, aparentemente não tem culpa. Ela se justifica agindo como se o problema não fosse dela: o problema é dos brasileiros.

Outra coisa: se ela não assinou a petição online e nem foi entregar o documento ao vivo no Congresso, que moral ela tem para criticar as pessoas que se mobilizaram "apenas" pela internet?

Outro exemplo:

"É um absurdo esse pastor ter assumido a Comissão dos Direitos Humanos. Ele deveria ter a humildade de saber que, para ocupar esse cargo, a pessoa deveria ser mais isenta. Acho um absurdo quando a religião passa por cima dos interesses coletivos. E pior ainda: os protestantes defendendo isso porque é alguém da religião deles."

Minha conclusão: Essa frase é perfeita para mim. Concordo com todos os pontos, sem exceção. Nem parece que saiu da boca de uma pessoa extremista e extremamente fanática por outra religião, que defende absurdos muito parecidos com esse. Mas daí tudo bem, porque eles são realizados por seu próprio grupo (que, aliás, também está na política).

Mas o que acho mais curioso é que ela consegue ter uma percepção incrível da manipulação religiosa...

...sofrida pelos outros! Quando se trata da sofrida por ela mesma, todo esse conhecimento parece que evapora. Parece outra pessoa.

***
Por que será que isso acontece? Por que é mais fácil falar dos outros ou falar da gente como se fosse outro?


quarta-feira, 6 de março de 2013

A parte mais difícil de amar

Eu acho que talvez a parte mais difícil de amar é entender que cada um é responsável por si e suas escolhas. Até aí, tudo bem, viva a liberdade de expressão! Mas o foda é que isso ocorre tanto quando as escolhas  são acertadas quanto quando são erradas.

Quando a gente ama alguém, seja nosso namorado, nosso melhor amigo, mas, principalmente, alguém da nossa família, muitas vezes nós conhecemos essa pessoa tão bem, que pensamos que sabemos o que é melhor para ela. E você sabe que às vezes a gente até sabe mesmo...

...o problema é que a escolha do caminho a se seguir é uma das poucas coisas na vida que é só nossa e o outro não pode fazer pela gente. Claro que o outro interfere, opina, argumenta e até obriga... mas o passo à frente, ou atrás, quem dá é a gente mesmo. Na primeira oportunidade que tivermos.

E como é duro ver alguém que a gente ama dando passos para trás... Como é duro ver alguém que a gente ama sofrendo pelas próprias escolhas que fez. E mais duro ainda é ver que a pessoa não está enxergando que todo o mal que está passando é fruto justamente dos caminhos errados que ela tomou.

A gente não aceita isso. O amor não deixa. E é por isso que eu digo que aceitar as escolhas do outro é a parte mais difícil de amar.

Nós não temos o controle das nossas vidas e muito menos da dos outros. Bem que gostaríamos de ter, mas não temos. E quanto mais cedo entendermos isso, mas fácil, ou menos difícil, nossa passagem por este mundo será.

Acho que o mundo vive numa fase de grande questionamento de credos. Mas uma coisa eu já tenho como certa dentro de mim. Tudo o que acontece tem uma razão. Absolutamente tudo! Por mais que a gente a desconheça, ou até nunca venha a conhecê-la.

O problema é que esse "tudo" abrange as coisas felizes e as tristes, aquelas duras de aceitar. Aquelas bofetadas crueis que nos pegam desprevenidos e nos desmontam de uma hora para outra, parecendo que nunca mais vamos conseguir nos remontar.

E talvez não consigamos mesmo. Pelo menos, não da forma como éramos antes. Alguns pedaços que tiram da gente nunca poderão ser recuperados. O vazio ficará lá. Obra do amor.

Mas é aqui que entra o grande socorro às feridas de amor: o tempo. Com o tempo, a gente consegue parar, refletir, chorar... se desesperar. Protestar, sofrer, maldizer, brigar. Perder a esperança. Mas com o tempo a gente também consegue se distanciar do que aconteceu e entender melhor as coisas. Ou, pelo menos, deixar de sofrer tanto por elas.

Quem ama é capaz de fazer de tudo pela pessoa amada. E eu acho que essa é uma das maiores belezas do amor. Mas o que precisamos entender é que isso não nos torna responsáveis pelas escolhas dela.

Acho que essa é a lição de vida mais difícil de aprender. E talvez uma das mais doloridas. Mas sabe que, ironicamente, o amor, e sua plenitude, também é um dos professores nesse caso. Para o amor, não existe tempo, não existe fim, não existe morte. O amor só existe... e isso basta.

O amor é o que nos faz acordar todos os dias e seguir em frente... mesmo quando seguir em frente não parece ser a melhor opção.

Mas é... e o amor também nos dará a força necessária para isso nos dias difíceis.