sábado, 9 de março de 2013

Meus defeitos são outra história

Não consigo me acostumar com pessoas que tercerizam a própria vida, narrando-a na forma de uma história. Talvez porque eu tenha uma facilidade enorme de falar sobre mim mesma, meus sentimentos, minhas qualidades e meus defeitos. Até demais... vários companheiros de dois minutos de elevador já ouviram coisas minhas que tem gente que leva a vida inteira para contar para o terapeuta.

Talvez eu tenha exagerado um pouquinho, mas a ideia era caricaturar mesmo. Você conhece alguém que fala de si e seus sentimentos sempre na terceira pessoa? Você é assim?

Vou dar dois exemplos que ouvi recentemente:

"Estou cansado do brasileiro de hoje que se acha engajado assinando petições pela internet. Veja essa última do Renan Calheiros: mais de 1 milhão de assinaturas virtuais e meia dúzia de gatos pingados para entregar o abaixo-assinado ao vivo em Brasília."

Algumas coisas me passaram pela cabeça ao ler isso na minha timeline:

1. Essa pessoa está falando dos brasileiros e é brasileira. Logo, ela está fazendo uma crítica a ela mesma sem perceber.
2. Essa pessoa assinou a petição online? Obviamente não.
3. Essa pessoa foi entregar o documento ao vivo no Congresso? Provavelmente não.

Minha conclusão: a pessoa está usando a própria arrogância para mascarar a sua comodidade em relação às coisas que acontecem no Brasil. Quando ela fala dos brasileiros, e não dela mesma, ela se distancia do assunto e, assim, aparentemente não tem culpa. Ela se justifica agindo como se o problema não fosse dela: o problema é dos brasileiros.

Outra coisa: se ela não assinou a petição online e nem foi entregar o documento ao vivo no Congresso, que moral ela tem para criticar as pessoas que se mobilizaram "apenas" pela internet?

Outro exemplo:

"É um absurdo esse pastor ter assumido a Comissão dos Direitos Humanos. Ele deveria ter a humildade de saber que, para ocupar esse cargo, a pessoa deveria ser mais isenta. Acho um absurdo quando a religião passa por cima dos interesses coletivos. E pior ainda: os protestantes defendendo isso porque é alguém da religião deles."

Minha conclusão: Essa frase é perfeita para mim. Concordo com todos os pontos, sem exceção. Nem parece que saiu da boca de uma pessoa extremista e extremamente fanática por outra religião, que defende absurdos muito parecidos com esse. Mas daí tudo bem, porque eles são realizados por seu próprio grupo (que, aliás, também está na política).

Mas o que acho mais curioso é que ela consegue ter uma percepção incrível da manipulação religiosa...

...sofrida pelos outros! Quando se trata da sofrida por ela mesma, todo esse conhecimento parece que evapora. Parece outra pessoa.

***
Por que será que isso acontece? Por que é mais fácil falar dos outros ou falar da gente como se fosse outro?


Nenhum comentário:

Postar um comentário