Raiva e frustração são exatamente a mesma coisa; a diferença está na gradação. A frustração vem sempre primeiro e a raiva, não necessariamente depois. Mas se ela decide vir, aí sim, é necessariamente depois. O um depende do outro, mas o outro não depende do um. Já ouviu uma história assim?
Tenho certeza de que já e ela começa sempre do mesmo jeito: com as minhas, as suas, as deles, as delas... as nossas queridas ex-pec-ta-ti-vas! Sempre maiores, mais rígidas e muito mais implacáveis do que nunca, elas estão sempre lá. Mas apesar de existirem sempre, praticamente nunca são atendidas. E aí? Como é que fica?
Fica você com a frustração. Os pessimistas costumam dizer que viver é frustrar-se todo dia. Você se frustra todos os dias? Quase todos os dias? Pelo menos, isso é sinal de que você está vivendo... (é, eu não sou pessimista :)
A relação da frustração com a raiva é fácil de perceber. Faça o caminho contrário. Qual foi a última vez que você sentiu raiva? Tente lembrar a situação (de trás pra frente, certo?): primeiro o desfecho, depois a sua reação, depois o seu sentimento, depois o comportamento do outro que causou esse sentimento e primeiro... bingo! Você se frustrou!
Você tinha uma expectativa: queria que o ônibus passasse, que o salário aumentasse, que o 3G funcionasse, que o gatinho te ligasse, que seu chefe enxergasse, que seu time ganhasse... queria que hoje não chovesse (ou chovesse, olha a Cantareira, né?), que você emagrecesse, que sua amiga percebesse, que seu cabelo crescesse... queria que seu filho dormisse, que sua mulher sumisse e que hoje você saísse, em vez de passar mais uma noite, cansada, sentada na frente ao computador.
Tudo isso dá raiva. Toda frustração dá raiva e não existe raiva sem frustração. E desafio você a me contrariar nessa que é uma das poucas certezas absolutas da vida.
Ah, e esqueci do principal... para combater a raiva? Se para chegar nela, você tem sempre que passar pela frustração, bora atacar o mal pela raiz: menos cobrança e mais amor. Por você! S2
Um espaço para esvaziar a cabeça, depositar os pensamentos e abrir espaço para o novo.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
domingo, 12 de outubro de 2014
Histórias de uma noite qualquer... preconceito, intolerância, violência
Porta da balada. Rua Augusta, São Paulo, 2h da madrugada de sábado. Estou com amigos e amigos de amigos. Gente do bem, inspiradora, divertida, consciente, politizada. Conversamos sobre em qual balada vamos entrar e também em quem vamos votar no segundo turno. Discordamos, concordamos, rimos. Aproveitamos a brisa da noite gostosa. Estamos em paz.
Na fila, um carinha bem bonitinho olha para mim. Olho sem querer de volta. Ele chega perto e cumprimenta. Cumprimento de volta. Começamos a conversar. Uma das primeiras falas dele:
--- E aí? Qual é a dessa balada?
--- É legal. Tem gente interessante e música boa.
--- Mas não tem muito gay e lésbica não, né?
Arregalo o olho:
--- Por quê? Qual o problema de ter?
--- Eu não gosto de balada assim.
É mais forte do que eu. Esse tipo de pensamento me broxa. Chamei ele de coxinha e preconceituoso. Ele achou graça na menina invocadinha, pensou mesmo que estava arrasando. Não achei a menor graça nele.
...
Desistimos de entrar na balada e subimos a Augusta em busca de um bar para sentar e conversar. Encontramos um boteco gostoso, na Frei Caneca com a Peixoto. Mesa na rua, bebida barata. A madrugada estava uma delícia, fresca; a rua lotada de gente. Sentamos, pedimos nossa breja e ficamos falando sobre nós e o que achávamos do mundo.
Depois de mais ou menos uma hora conversando, fomos surpreendidos por um cara correndo. Três atrás dele. Ele gritava, desesperado: "Não fui eu, não fiz nada". Os três não davam ouvidos e corriam atrás dele com garrafas de vidro nas mãos. Covardia, violência, ignorância. Tráfico de drogas para os playboyzinhos classe média alta. Nós.
Mais alguns minutos e um morador de rua nos abordou pedindo dinheiro. Não tínhamos. Ele nos ameaçou de morte. Desigualdade social. Má distribuição de renda. Nós.
Um pouco incomodados, entramos para dentro do bar para acabar a breja e ir embora. A vibe da rua gostosa mudou de uma hora para a outra. Ficou pesada, assustadora. Mais alguns minutos e ouvimos uma confusão lá fora. Mais uma vez, a covardia... aparentemente um grupo de muitas pessoas tentou intimidar alguém. Um barulho de garrafa quebrando... violência gratuita. Intolêrância. Nós.
Alguns gays entraram dentro do bar... um deles queria saber onde estava o marido dele que, aparentemente, havia sido acertado com uma garrafa de vidro. Os amigos não queriam deixá-lo sair (ele poderia apanhar também). Acusaram uma amiga da nossa turma de homofóbica e disseram que ela teria mandado um grupo de heteros bater no tal marido pelo simples fato de ele ser gay. Ela estava com a gente, levou um casal de amigos gays para o rolê. Ela não é homofóbica. Teve que sair às pressas para não apanhar também.
...
O cara bonitinho que, além de não gostar de ambientes gays, acha legal xavecar uma menina dizendo isso. A covardia de um grupo querer bater em uma pessoa sozinha. A agressão livre pelo simples fato de um homem gostar de dar o cu e chupar um pau. A confusão que levou um grupo gay a achar que uma garota era homofóbica sem ser. A miséria debaixo do nosso nariz. O ódio que paira na noite jovem, regado por drogas e preconceitos.
E não só estamos em São Paulo, a quinta maior cidade do mundo, como em uma das regiões mais receptivas para a diversidade social.
O que está acontecendo com o mundo? O que vai ser de nós?
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