Toda vez que converso com meus amigos gays sobre relacionamentos, fico sempre agoniada pensando no sofrimento que eles passaram na definição da sua sexualidade. Para começar, praticamente não existe a expressão "definição de sexualidade" para nós, heteros. Não consigo me lembrar em que momento da vida eu soube que gostava de homens. Eu simplesmente sempre gostei de homens. E é isso. Foi algo natural. Nunca precisei definir nada para ninguém e muito menos para mim mesma.
Não quero entrar no mérito se a homossexualidade é uma questão genética, cultural, comportamental ou qualquer coisa nessa linha. Isso é o que menos importa nesta reflexão. Perdemos muito tempo debatendo a homossexualidade, quando deveríamos estar concentrando esforços em aceitá-la da forma natural que é. Vivemos em um país em que a ideia absurda da "cura gay" é mais uma vez pauta no Congresso e em que pessoas saem do cinema revoltadíssimas ao verem uma cena de sexo entre dois homens.
Por que isso incomoda tanto? Por que tem tanta gente preocupada com o que entra e o que sai do cu dos outros? Fica a dúvida...
Praia do Futuro
Acho que é quase uma obrigação moral que todo brasileiro que também acha absurda essa onda de conservadorismo explícito que temos vivido assista a esse filme. Trata-se de um drama forte, mas extremamente sutil. Acho, aliás, que os melhores dramas são sutis, trazendo questões densas e delicadas nas entrelinhas, para serem captadas apenas por quem está realmente atento e aberto a recebê-las.
O embate interno vivido por Donato (Wagner Moura) em ter que lidar com as merdas que a vida nos envia com tanto carinho (aliás, obrigada, vida! Tamo junto!), junto com a questão de sua homossexualidade reprimida é sufocante. Curioso notar que essa sensação de falta de ar já é anunciada no início, com a cena do afogamento que acabará desencadeando a grande virada na vida de Donato.
Em nenhum momento da trama Donato se questiona, explica ou mesmo demonstra algum sofrimento direto gerado pelo preconceito que vivencia por ser gay. Não é preciso. Nas entrelinhas, a história vai mostrando a agonia silenciosa vivida por ele e o peso que esse sofrimento tem nas decisões que toma. Muito incrível a forma como o filme conseguiu tratar desse universo tão denso, desesperador e confuso de forma tão simples e direta. Foi o que mais gostei no filme de longe! Uma abordagem maravilhosa.
A vice-liderança ficou justamente para as cenas de sexo entre Donato e Konrad (Clemens Schick), que são intensas, carinhosas e extremamente sensuais. Não tenho dúvidas de que foi a melhor cena de sexo gay que já vi. Um bom gosto extremo e um tesão incrível, que deveria deixar qualquer ser minimamente sexual subindo pelas paredes. Isso para não falar da escolha dos atores, que além de talentossímos, são lindos e extremamente gostosos. Saí suspirando do cinema e vou sonhar com Wagner Moura hoje. S2
Do lado negativo, o filme é bem paradão. É verdade. Mas vale assistir por tudo o que ele representa dentro e fora das telas. Felicianos, Bolsonaros e extremistas religiosos podem bater o pé o quanto quiserem: aceitar a homossexualidade é um caminho sem volta. Sou muito feliz por fazer parte da geração que vai ver isso acontecer. Já comprei pipoca.

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