sábado, 24 de maio de 2014

Pouco importa o que entra e sai do cu dos outros

Toda vez que converso com meus amigos gays sobre relacionamentos, fico sempre agoniada pensando no sofrimento que eles passaram na definição da sua sexualidade. Para começar, praticamente não existe a expressão "definição de sexualidade" para nós, heteros. Não consigo me lembrar em que momento da vida eu soube que gostava de homens. Eu simplesmente sempre gostei de homens. E é isso. Foi algo natural. Nunca precisei definir nada para ninguém e muito menos para mim mesma.

Não quero entrar no mérito se a homossexualidade é uma questão genética, cultural, comportamental ou qualquer coisa nessa linha. Isso é o que menos importa nesta reflexão. Perdemos muito tempo debatendo a homossexualidade, quando deveríamos estar concentrando esforços em aceitá-la da forma natural que é. Vivemos em um país em que a ideia absurda da "cura gay" é mais uma vez pauta no Congresso e em que pessoas saem do cinema revoltadíssimas ao verem uma cena de sexo entre dois homens.

Por que isso incomoda tanto? Por que tem tanta gente preocupada com o que entra e o que sai do cu dos outros? Fica a dúvida...

Praia do Futuro
Acho que é quase uma obrigação moral que todo brasileiro que também acha absurda essa onda de conservadorismo explícito que temos vivido assista a esse filme. Trata-se de um drama forte, mas extremamente sutil. Acho, aliás, que os melhores dramas são sutis, trazendo questões densas e delicadas nas entrelinhas, para serem captadas apenas por quem está realmente atento e aberto a recebê-las.

O embate interno vivido por Donato (Wagner Moura) em ter que lidar com as merdas que a vida nos envia com tanto carinho (aliás, obrigada, vida! Tamo junto!), junto com a questão de sua homossexualidade reprimida é sufocante. Curioso notar que essa sensação de falta de ar já é anunciada no início, com a cena do afogamento que acabará desencadeando a grande virada na vida de Donato.

Em nenhum momento da trama Donato se questiona, explica ou mesmo demonstra algum sofrimento direto gerado pelo preconceito que vivencia por ser gay. Não é preciso. Nas entrelinhas, a história vai mostrando a agonia silenciosa vivida por ele e o peso que esse sofrimento tem nas decisões que toma. Muito incrível a forma como o filme conseguiu tratar desse universo tão denso, desesperador e confuso de forma tão simples e direta. Foi o que mais gostei no filme de longe! Uma abordagem maravilhosa.


A vice-liderança ficou justamente para as cenas de sexo entre Donato e Konrad (Clemens Schick), que são intensas, carinhosas e extremamente sensuais. Não tenho dúvidas de que foi a melhor cena de sexo gay que já vi. Um bom gosto extremo e um tesão incrível, que deveria deixar qualquer ser minimamente sexual subindo pelas paredes. Isso para não falar da escolha dos atores, que além de talentossímos, são lindos e extremamente gostosos. Saí suspirando do cinema e vou sonhar com Wagner Moura hoje. S2

Do lado negativo, o filme é bem paradão. É verdade. Mas vale assistir por tudo o que ele representa dentro e fora das telas. Felicianos, Bolsonaros e extremistas religiosos podem bater o pé o quanto quiserem: aceitar a homossexualidade é um caminho sem volta. Sou muito feliz por fazer parte da geração que vai ver isso acontecer. Já comprei pipoca.

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