quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Os tsunamis nossos de cada dia

Um tsunami. Vindo devagarzinho, com quilômetros de altura e água bem azul. Uma onda comprida que se misturava com o céu. Eu estava na frente da minha casa, que ficava mais ou menos na metade da rua. Era uma subida e eu não conseguia ver o que mais estava por vir. Apenas a onda. Enorme, desesperadora. Não dava tempo de entrar em casa e avisar minha família. Não dava tempo de correr. Eu ficava só olhando para ela e o estômago vinha na boca.

É curioso como às vezes os sonhos (no caso, os pesadelos) se repetem, não é mesmo? Por muitos anos, essa cena que eu descrevi assombrou minhas noites de infância. Tanto que se eu fechar os olhos agora, consigo reconstruir a cena perfeitamente na minha cabeça. Quase que consigo lembrar também da sensação de desespero quando eu acordava. Aquela quebra abrupta entre sonho e realidade, prender-se na cama com os dois braços como se eu estivesse caindo e a respiração rápida, curta e desesperada. Aqueles poucos segundos eternos de confusão até entender que aquilo foi só um fruto do imaginário.

E mesmo depois de entender, demorar a dormir. De tão real que tudo pareceu. De medo que aconteça de verdade, de medo de sonhar de novo. De vergonha por estar com medo de um sonho. E, na manhã seguinte, o sorriso amarelo e quase que envergonhado pelo medo passado à noite e a tentativa de entender o significado do pesadelo.

Eu nunca consegui identificar o sentido concreto desse sonho. O que exatamente ele estava reprensetando na minha realidade da época, nos meus sentimentos da época. E, depois de grande, nunca mais sonhei com isso.

Mas ultimamente, acordada, tenho lembrado muito dele. As novas etapas da vida não parecem um tsunami às vezes? Eu me sinto exatamente assim neste momento. No meio da rua, a onda vindo, maior do que eu e eu não posso fazer nada para impedi-la. Não podemos fazer nada para evitar a passagem do tempo, algumas mudanças, o fim de algumas fases.

A sensação é da morte iminente, mas o curioso é que é sem a sensação de fim. Eu fico pensando que talvez morrer seja assim. A gente sabe que está chegando, mas todo aquele vazio que a gente temeu a vida inteira sentir à beira da morte não aparece na hora. Desespero, sim. Afinal, tudo o que a gente conhece vai ser inundado. E a gente sabe que não consegue sobreviver debaixo d'água. Mas será mesmo o fim?

Quando tudo o que está errado, por mais que nos faça sofrer, já é dado como certo na nossa vida, uma mudança, mesmo com a possibilidade de melhora, é desesperadora. É o tsunami, é a sensação da beira da morte. É olhar ao redor e saber que esses são os últimos segundos de tudo aquilo do jeito que a gente conhece. É uma saudade antecipada. É a morte.

Dizem que morremos um pouco a cada dia, né? Eu acho isso bem triste. Mas tento pensar que essa morte é fundamental para nos inundar, nos avassalar e, então, nos esvaziar... Só assim deixaremos espaço para novas coisas. Para uma nova rua, para uma nova casa. Melhor ou pior não sei... mas é o novo!

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